O Dharma e o Terapeuta Ayurvédico

Dharma

por Graziela Spadari Perozzo

Existem algumas interpretações para a palavra Dharma, e eu falo interpretações porque traduzir sânscrito não é bem assim. Na maioria das vezes o contexto conta muito, a palavra serve para vários significados. Uma das interpretações que eu mais gosto é a seguinte.
Dharma não é só um. Dharma se vive no dia a dia. Nas pequenas ações que fazemos. Muitas vezes vemos traduzido como missão, ou ação correta. Não deixa de ser. Mas difere um pouco daquela missão cristã espiritualista. Na verdade, Dharma é a nossa forma de agir no mundo. Está adequado ao nosso ser maior? Dharma está associado a como a pessoa irá contribuir para a sociedade, para o planeta, pois todos temos contribuições a dar. Se todos estivermos agindo corretamente, dentro daquilo que é nosso Dharma, tudo vai bem para todos. Assim como os elos de uma corrente. Se os elos são fortes, a corrente é forte.
O Dharma é comumente associado a propósitos espirituais, aos altos propósitos que estão por trás dos nossos desejos maiores. Seria o propósito que lhe foi atribuído pelo divino e que corresponde aos seus dons e habilidades únicas. Eles ajudam você a ir mais longe, apesar de muitas vezes, serem também causas de stress.

Mas e daí? Qual o Dharma do Terapeuta Ayurvédico?
Quando iniciamos um curso novo de Ayurveda, aqui no Espaço Anam Cara, eu sempre digo aos alunos. Sua maior função não é tratar as pessoas, e sim educar para a saúde, trazendo à luz do conhecimento comum o Ayurveda, beneficiando assim a comunidade.
Muitas vezes, você não estará em uma consulta, pois até em um bate-papo, pode mudar para sempre a forma como uma pessoa lida com determinada questão em sua vida. E olha, o Ayurveda tem muitas formas. Então somos às vezes terapeutas, às vezes professores, às vezes alunos, às vezes treinadores, facilitadores. E tudo isso, para que aquela pessoa, trilhe o seu próprio e melhor caminho. Não o que achamos que deve ser. Mas o dela.
E como cada um de nós vai fazer isso? Bom, isso depende do nosso próprio Dharma, dons, habilidades, inspirações e experiências.
O conhecimento Ayurvédico pode ser a base de uma vida harmoniosa. E essa informação está mais importante atualmente do que nunca esteve. Nos distanciamos cada vez mais da natureza, e o Ayurveda vem nos relembrar da nossa conexão com toda a criação. O Ayurveda juntamente com sua ciência irmã, o Yoga, tem o potencial de reconectar cada pessoa de volta à fonte. As duas ciências ajudam o ser-humano a recordar a sua origem e sua conexão com a natureza e com o espírito, e assim que isso ocorre, inicia-se o restabelecimento da harmonia, saúde e bem-estar.
De qualquer forma, todo o conhecimento é inútil se não for aplicado em benefício da humanidade, e essa é a função do Terapeuta Ayurvédico, que deve mover o conhecimento da cabeça para o coração e aplicá-lo a partir dali.
A prática do Ayurveda se dá através de tocar o coração de clientes e pacientes e ao mesmo tempo estimular a transformação e o despertar da consciência dentro destes. Quanto mais corações forem tocados, mais consciência de cura e mais paz e harmonia no mundo. Isso mesmo, o Dharma do Terapeuta Ayurvédico não está somente no âmbito interpessoal, mas também global. A consciência de cura não é apenas individual. Ela se dá em nível comunitário, no nível de cidades, estados, países e por fim, planeta.
Quem atende ao chamado para ser Terapeuta Ayurvédico(aliás, como em toda a profissão), tem o dom de saber o seu Dharma. É como se Deus houvesse falado e ele tivesse ouvido. E depois disso, só resta entregar-se e servir. Tarefas aliás que não são tão fáceis quanto parecem. Entregar-se a algo, talvez seja uma das ações mais difíceis que o ser humano precise ter, pois isso muitas vezes significa colocar de lado desejos e metas pessoais em favor do serviço divino. E é preciso muita fé e coragem para agir de forma altruísta.
Nosso self, ou ahamkara(ego), se esforça muito para perpetuar o status quo. Geralmente não gosta de mudanças e crescimento. Algo novo pode ameaçar a própria existência do Eu estabelecido. Como resultado disso, geralmente nós mesmos sabotamos o nosso crescimento em vista de manter a segurança do que já temos. Logo também a mente começa a questionar: isso que sinto é uma imaginação da percepção do meu Dharma, ou uma oferta verdadeiramente divina? Se for minha imaginação, estarei eu dando passos para longe da realidade do meu Dharma? Esse tipo de questionamento geralmente aflige aqueles que não tem uma fé forte em sua real existência, e como resultado, as ocupações mais elevadas acabam recebendo menor importância do que aquelas ditas “necessárias para a sobrevivência” e a pessoa finalmente desiste, e volta para um “eu" de existência mundana. Alguns jamais terão a clareza de vislumbrarem a porta do Dharma. Daqueles que a vêem, poucos a atravessam. É preciso caminhar com coragem e fé.
O sucesso na vida pode ter várias medidas. A grande maioria vai medi-lo com base no dinheiro e poder. Poucos vão medi-lo com base no serviço e realização. Mas quando nos entregamos ao Dharma, garantimos um sucesso equilibrado em todos os parâmetros. O universo atua a favor daqueles que se alinham com as intenções divinas.
Mas até mesmo a vida no Dharma pode ser desequilibrada se não for bem balanceada. É possível tornar-se excessivamente ligado ao Dharma, buscá-lo a todo o custo, encarando-o como uma missão divina, e aceitando justificativas para destruir tudo o que se interpõe no caminho. A humanidade está cheia de personalidades que espalham ódio em nome de Deus. Tal comportamento é fanatismo, e não serviço no Dharma. Ao invés do fluxo da energia do universo acontecer, acontece o bloqueio do fluxo divino em nós. O Dharma nunca poderia se cumprido dessa forma.
O cumprimento harmonioso do Dharma é um processo delicado, amoroso, construído de trabalho constante e devoção aos princípios mais elevados que permeiam o assunto. Como seres humanos, facilmente tendemos a cair na sombra escura do ego. Mas dentro de cada um de nós existe uma luz divina. Quando nos abrimos para ela, a escuridão se dissolve. Quando o Terapeuta Ayurvédico serve a comunidade com amor e respeito, a consciência é curada e o Dharma é cumprido.
Que todos nós possamos trabalhar através dos nossos próprios dons e talentos para trazer o conhecimento do Ayurveda à luz da idade moderna. Que todos nós possamos cumprir nosso Dharma.

Namaskar