A Superficialidade do Conhecimento

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Escrevo esse artigo por estar a cada dia que passa mais e mais preocupada com o rumo da busca de conhecimento, principalmente na área em que atuo, a das terapias, e mais especificamente ainda, no campo do Ayurveda.

Vivemos em um tempo de “conhecimento fácil”. Isso nos dá a falsa noção de que o acesso fácil torna desnecessário o aprofundamento.
Vou falar do Ayurveda, pois é a área em que atuo, mas serve para qualquer âmbito do conhecimento, acredito eu.
Ayurveda não é uma “técnica”. Arrepios percorrem minha coluna quando ouço alguém chamando Ayurveda de “aquela técnica”, “massagem de relaxamento”, “técnica de relaxamento” e por aí vai.
Ayurveda é uma medicina. Tradicional, antiga, complexa e completa.
Não dá para aprender ayurveda em um curso de final de semana e nem lendo um livro.
Para ser um bom terapeuta ayurveda, você precisa entender de anatomia, fisiologia, herbologia, nutrição, diagnóstico, psicologia, saber fazer os procedimentos, entender da filosofia e da cosmologia, da química e por aí vai.
Me preocupo demais, quando vejo cursos de ayurveda de um, dois, 10 finais de semana. Não dá.. simplesmente não dá para aprender ayurveda a ponto de trabalhar com as pessoas, dessa forma e nesse tempo.
Como digo sempre aos meus alunos lá no início do curso. Vocês não estão trabalhando com parafusos, e sim com pessoas. Vão mexer na vida, na mente, na saúde delas. Saibam o que estão fazendo. Estudem. Desenvolvam raciocínio ayurvédico.
Hoje é tudo fácil. Quero saber que remédio dou para determinada doença, o google responde.
Mas se você estudou ayurveda com alguém que lhe mostrou a importância e a gravidade da matéria que estava estudando, sabe que no Ayurveda, cada caso é um caso. Que um diabetes tratado em uma pessoa, será tratado de forma diferente em outra.
Essa é a beleza e a eficácia do ayurveda. Então não, não tem remédio pra isso, pra aquilo, e pra aquele outro. Existem sim, pessoas. Tratamos pessoas e não doenças.
Hoje está fácil ir pra Índia também.
A Índia é linda, amo, com todas as minhas forças. Mas não é perfeita.
Nem tudo lá ainda é tradicional e verdadeiro.
Aí vejo pessoas indo fazer um curso de Ayurveda de um mês na Índia, voltando e se entitulando “terapeuta ayurveda”. Mais uma vez, não dá. Mais uma vez, precisa estudar. Precisa tempo pro conhecimento se formar dentro de você. Precisa tempo para construir esse conhecimento. Precisa desenvolver um “anexo ayurvédico” na sua mente e no seu ser, que o faça pensar ayurvédicamente. E isso não se constrói em um final de semana. Leva uma vida. Somos eternos estudantes. Mas um tempo mínimo é necessário para você poder se movimentar dentro do conhecimento sem prejudicar ninguém. Vejo gente terminando um curso em um final de semana e dando aula no seguinte. E isso me apavora, porque é uma consequência em cadeia de conhecimento ruim, formando conhecimento ruim.
Mas voltando ao Ayurveda, Ayurveda não tem só a ver com vata, pitta e kapha.
Se você ainda está na fase que classifica tudo em doshas, que diz que isso é bom pra vata, que aquilo é bom pra pitta e isso faz mal pra kapha. Estude mais, muito mais. Abra a sua mente para entender o que vai além das aparências, além do básico superficial. Se você quer um diploma rápido, para atuar rápido, pense bem. Atuar em que? Com que? Com quem? Qual a ética que lhe move a fazer suas escolhas. Porque você quer ser terapeuta? Perguntas importantes para quem vai lidar com gente.
Muitas coisas foram se superficializando ao longo da história humana. E não preciso escrever aqui o quanto isso nos tornou socialmente doentes. E antes que digam que sou contra o desenvolvimento, já digo que não. Adoro tecnologia bem aplicada, bem direcionada, adoro evolução que acentua a humanidade, adoro desenvolvimento social que seja sustentável. Mas sim, sou contra a artificialidade do conhecimento, a superficialidade das relações e o adoecimento do ser que advém de tudo isso.
O ayurveda não é um sistema para estereotipar as pessoas. Pelo contrário. É um sistema amplo e eficiente de pormenorizar as pessoas, de ver o que cada um tem de particular, e de tratar desse particular. Acho realmente chato quando estou em um lugar e começo a ouvir piadinhas do tipo: hummm é pitta, por isso é grosseiro desse jeito, hummm é kapha, olha que preguiçoso, nossa olha esse vata irresponsável. Isso é comentário de quem nunca estudou ayurveda com amor e dedicação. Os biotipos são apenas indicadores e tendências metabólicas, e não são algozes e nem justificativas para mau comportamento ou auto-promoção.
Pensemos na responsabilidade que temos, ao adentrar no conhecimento ayurvédico, chinês, tibetano, enfim… conhecimento esse trazido a nós por homens sábios, e que estamos transformando em tabelas e protocolos.
Esses conhecimentos estão ressurgindo e tendo tanta evidência, não é por acaso. É porque o sistema do jeito que o fizemos, não apraz mais à uma boa parte da população humana. Então, porque cargas d’água, queremos encaixar esses conhecimentos tradicionais no novo status quo que não agrada mais?
Meio insano isso me parece. Ou então, mais uma vez, corremos o risco de nos perder.
Não gente, o fácil acesso, não significa caminho aberto para a irresponsabilidade.
O fácil acesso só significa isso e mais nada: fácil acesso.
Ainda é preciso esforço, estudo, suor, um querer forte e amar ao próximo para ser terapeuta.

Namaskar!

Graziela Spadari Perozzo
Terapeuta Ayurveda
Espaço Anam Cara – Um Lugar Amigo Da Alma

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